A CIÊNCIA DA CRIAÇÃO I: Cristãos, judeus e os 6 dias

Acreditar na criação é ir contra as teorias de evolução do nosso universo? Acreditar que exista um Deus que criou nossa dimensão material exclui a possibilidade de multiversos e Big Bangs?

Alguns cristãos a muito tempo falam sobre a simetria que há entre os relatos bíblicos e as teorias científicas sobre o princípio de tudo. A grande massa cristã e judaica lê estes textos de forma mais literal e realmente não admite comparações, mas sempre existem aqueles inquietos que desejam saber mais, e comparações entre ciência e fé da criação já são realizadas por judeus e cristãos a quase 900 anos.

Saímos em busca de respostas sobre criação seja ela através das mãos de uma divindade ou através de grandes explosões de energia, e descobrimos que a bíblia (e o Torah) apresentam indícios de que sim nosso universo é tão antigo quanto a ciência pode imaginar.

Os judeus acreditam que o texto sagrado é sagrado em todos os sentidos, cada letra, cada palavra, cada frase está literalmente descrita da forma como deveria estar. Quando um judeu lê seu texto sagrado ele o interpreta exatamente como está escrito. Para os judeus o mundo e os seres humanos possuem cerca de 5780 anos, o que para a ciência é pouco.

Mas entre 1194 e 1270 viveu um rabino judeu chamado Nahmanides, ele transcreveu o texto de Gênesis de uma forma um tanto mais científica. Seu texto se tornou um dos mais belos textos a respeito da criação do mundo, e devemos considerar que ele o escreveu muito antes dos vislumbres científicos que possuímos hoje:

“Nos instantes seguintes antes da criação, toda matéria do Universo estava concentrada em um lugar muito pequeno, não maior do que um grão de mostarda. A matéria neste momento era muito fina, tão intangível que não tinha substância real. Ele tinha, no entanto, um potencial para ganhar substância de forma a tornar-se matéria tangível, a partir da concentração inicial da substância intangível naquele instante, ela tornou-se o Universo expandido. Com a expansão progredindo, uma mudança na substância ocorreu. Essa substância inicialmente fina assumiu os aspectos tangíveis da matéria como a conhecemos. A partir desse ato inicial de criação, a partir dessa pseudosubstância etereamente fina, tudo o que existe, ou venha a existir, foi, é, e será formado.”

 

#TRADUÇÕES

De acordo com a tradição judaica os 5 primeiros livros da bíblia (Torah), o que inclui os relatos da criação, foram escritos por Moisés, mas não existem provas concretas, o Talmud faz menção a ele como o autor. Diz-se que as passagens da criação originalmente estavam em aramaico no livro de Sefer Bereshit (Gênesis). Mas na época de Moisés já se falava uma língua que viria a ser chamada hebraico, no entanto alguns acreditam que os textos foram traduzidos do aramaico para o hebraico, e na época de Daniel (cerca de 600 A.C) de volta do hebraico para o Aramaico, pois a língua dos então Israelitas foi influenciada pelo cativeiro na Babilônia e o Hebraico ficou então com um contexto mais litúrgico.

Ainda antes de Cristo 72 rabinos se reunirão por 72 dias para traduzir novamente os livros e deram origem a Septuaginta, que se tornou a versão “mais fiel” ao original.

Fora as traduções judaicas dos últimos 3000 anos, também existem as traduções feitas pelos cristãos para o etíope, o latim, o siríaco (no norte da terra de Israel), e muitas outras. Podemos dizer que a tradução para o latim é a mais importante para nossa era, pois foi amplamente utilizada no Ocidente, especialmente ao longo da Idade Média.

Quando Martinho Luthero fez sua reforma retraduziu todo seu conteúdo para o alemão e depois dele outros vieram.

Por tratarmos de um texto tão antigo, as diversas traduções influenciaram no contexto dos trechos sobre a criação, e seria impossível afirmar que o que lemos hoje na tradução moderna em português, foi exatamente o que o autor originalmente quis dizer. Mas lembramos aos criacionistas que as infinitas traduções não excluem a legitimidade e não fazem dos textos menos confiáveis, mas sim que exigem uma interpretação mais minuciosa.

 

#TRADUÇÃO DA CRIAÇÃO

Quando falarmos sobre criação, a palavra usada em Gênesis 1 para “dia” é “yom”.

Yom foi traduzido para:

  • “tarde e manhã, o dia primeiro” (Gênesis 1:5)
  • “tarde e manhã, o dia segundo” (Gênesis 1:8)
  • “tarde e manhã, o dia terceiro” (Gênesis 1:13)

Essa palavra pode ser designada tanto para um período de tempo de 24 horas como para uma representação mais genérica como um período de tempo.

Em Êxodos 20:11 Yom é novamente usado, e traduzido como 1 período de tempo, o texto original diz “yom” à tradução transformou em “6 dias”.

Existe uma tendência no criacionismo de que a terra foi criada em 6 dias de 24 horas mas as escrituras não dizem que o dia era de 24 horas, dizem apenas que foi yom. Para o Bispo cristão Robson Rodovalho em seu livro Ciência e fé “se os dias estiverem em ordem cronológica como explicar as frases: e foi a tarde e a manhã o dia primeiro, o dia segundo, o dia terceiro, se o sol e a lua não haviam sido criados ainda?” Não faz sentido usarmos o conceito de 24 horas nestes dias, se nosso planeta que faz 1 giro sobre seu eixo para estabelecer o dia de 24 horas, só foi criado no 2º dia e se o sol que “apareceu” trazendo luminosidade e “se escondeu” indicando a escuridão (manhã e tarde) foi estabelecido somente no 4º dia. Como explicaremos a contagem de dias que antecedem estes passos da criação?

Em II Pedro 3:8 lê-se “Pois um dia para o Senhor é como mil anos”. Fica claro que o Deus de Pedro não se prendia ao sentido stricto sensu do tempo. Então temos aqui uma evidência da flexibilidade de interpretação das escrituras.

Em Gênesis 2:4 a tradução mais próxima é: “estas são as gerações dos céus e da Terra quando foram criadas, no dia da sua criação”. A palavra hebraica Telodoth (gerações) significa o número de anos entre o nascimento dos pais e o nascimento de seus descendentes, ou um período de tempo maior. A tradução no plural sugere que os 6 dias foram um período longo para a criação dos céus e da terra, maior do que 6 dias solares que conhecemos.

Gerald L. Schroeder autor de “The Science of God” e de “Genesis and the Big Bang” fala de uma conciliação entre o registro criacionista judaico-cristão com as modernas declarações científicas incluindo a evolução. E também cita que o conflito entre as 2 visões (universo cientificamente velho e universo biblicamente novo) se dá pelo tempo descrito na bíblia não ser igual ao que conhecemos hoje. E aí voltamos para a frase de II Pedro, que também é encontrada nos textos judaicos de Davi: “Pois para Ti, mil anos são como um dia” Salmo 90:04.

Schroeder usa o conceito de “época” para a palavra Yom em Gênesis, podendo essas 6 épocas serem milhares, milhões e até bilhões de anos. Como um Deus conta o tempo?

O seriado Marvel Agents of Shield fez uma excelente descrição sobre o que é o tempo para um ser que vive dentro do tempo:

“Imaginem que vivêssemos em um mundo bidimensional, plano como uma folha de papel. Nós não seríamos capazes de conceber as 3 dimensões de um cubo ou qualquer coisa que não seja bidimensional. Nós pessoas do papel plano, perceberíamos este cubo tridimensional (o tempo) como vários momentos bidimensionais separados. Enquanto o tempo passa é um ponto de uma linha viajando pelo espaço tempo, mas na verdade o cubo e a linha estão fixos. Ele está ali parado, e para este cubo chamado tempo não existe futuro, não existe passado ele apenas É!”

Uma criatura que por definição criou a dimensão do tempo, jamais estaria presa a ela. Portanto é bem plausível que um Deus criador contaria o tempo de uma forma extremamente diferente da forma que uma criatura que vive no tempo conta. Esse Deus criador talvez nem conte o tempo, para ele o tempo apenas é. E neste caso é aceitável afirmar que os dias descritos na criação não são literalmente dias de 24 horas e sim períodos de tempo, épocas, fases.

 

#CRIAR E FAZER

Robson Rodovalho fala que a palavra ‘criar’ em hebraico “bara” se traduz como fazer algo a partir do nada “no princípio criou Deus os céus e a terra”, neste texto fala que a partir do nada surgiu um universo (os céus) e nosso planeta (a Terra) que também pode ser entendido como os planetas. Rodovalho continua citando que a palavra “fez” do verbo “fazer” no texto original é lida como “asah” que se traduz melhor como “formou” ou até mesmo “reformou usando algo já existente”, lemos este verbo em Gênesis 1:26 quando Deus FEZ o homem.

Em Gênesis 1:2 “a terra era sem forma e vazia” a palavra “era” foi usada como tradução da palavra hebraica “hayata” que tanto pode ser traduzida como “era” ou como “se tornou” ou “estava” o que indica uma transitoriedade.

Essas palavras foram usadas descrevendo um processo sistêmico desta criação, como uma ação progressiva e não imediata.

Rodovalho afirma:

“além disso o próprio conceito de um “universo sem forma e vazio” claramente aponta para um universo de energia – o que coincide claramente com as mais novas visões científicas”

 

#VIDA

Francis Collins é o diretor do Projeto Genoma e autor de um dos mais renomados artigos sobre ciência e fé do nosso século “A linguagem de Deus”. Ele afirma que se estima haver entre 20 mil a 25 mil genes que decodificam proteínas no Genoma Humano, quando a quantidade total de DNA utilizada por esses genes para decodificar as proteínas soma-se a 1,5% do total. Até os organismos mais simples como minhocas ou plantas parecem estar na mesma série que os humanos por volta de 20 mil.

A nível de DNA somos 99,9% idênticos entre todos os seres vivos, basicamente todas as coisas vivas fazem parte da mesma família. Em Gênesis 2:19 diz “o Senhor Deus formou da terra todos os animais”Collins acredita que toda espécie humana descende de um único grupo de aproximadamente uns 10 mil integrantes que estavam vivos a cerca de 100 a 150 mil anos.

Nahmanides junto com seu amigo rabino Maimônides (1135 – 1204) acreditavam que homens e animais possuem alma.

Em Gênesis 1:30 encontramos “E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu, e a todo ser vivente, que se arrasta sobre a terra…” a palavra vivente usada no original foi nephesh” que significa “vida, vitalidade, criatura, besta” ou seja “o fôlego que produz vida e existência de seres viventes”, a palavra também significa “vida no corpo”.

Nephesh é diferente da palavra usada em Gênesis 2:7 quando Deus soprou o fôlego nas narinas do homem, a palavra “sopro” no original é nshmah” que quer dizer “fôlego vital, inspiração, inteligência, alma ou espírito”. Assim temos duas formas de distinguir vida nos textos, sendo a vida animal e a vida com inspiração.

Nahmanides foi enfático em seus comentários sobre Gênesis 2:7 “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem TORNOU-SE alma vivente”. A pergunta feita pelo rabino foi: “Porque a palavra ‘tornou’ aparece aqui? o que era o homem antes desse momento?”. Grande parte dos intérpretes bíblicos citam que antes o homem era um boneco de barro, inanimado, mas Nahmanides acreditava que o homem antes de ser homem era um ser vivente, uma espécie de pré-homem.

Schroeder comparou esse pré-homem citado pelo rabino com a possibilidade das raças pré-adâmicas das teorias de evolução que conhecemos, o que traria a possibilidade de em uma dessas épocas que antecederam Adão, já existisse um hominídeo, um homem sem a inspiração do nshmah de Deus.

 

#POEIRA CÓSMICA

No livro “O Grande desígnio” os físicos Leonardo Mlodinow e Stephen Hawking afirmam que para haver vida é preciso haver elementos básicos como o carbono que é produzido no interior das estrelas a partir de elementos leves, e Robert Dicke disse em 1961, que esse processo de disseminação do carbono pelo universo demoraria pelo menos 10 bilhões de anos, o que significa que a noção de que o universo começou a 13.7 bilhões de anos pode estar certa, até chegar a Via Láctea no nosso planeta com os seres humanos há cerca de 100 mil anos atrás, e que algumas coisas como plantas e animais mais simples podem ter mais anos de existência no planeta do que estes 100 mil anos, mas ainda dentro desta previsão.

E quando combinamos essa informação com a informação de Francis Collins que diz que 99,9% das coisas vivas se parecem a nível de DNA, a nossa rede de informações fecha um ciclo.

Além disso uma pequena variação na física mudaria drasticamente as condições de vida no universo como por exemplo, uma pequena variação de 0,5% na intensidade da força nuclear forte ou de 4% na força elétrica destruiria quase todo o carbono e quase todo o oxigênio, e como consequência a possibilidade de vida como a conhecemos não seria real.

Hawking e Mlodinow afirmam que a Terra é tão não especial que depende de uma molécula simples como a da água para gerar vida, o que inspira a dizer da possibilidade de existência de vida similar a nossa em outras partes do universo, mas a vida não depende somente de água e carbono, eles também falam sobre o processo de translação da Terra em redor do sol que segue uma rota elíptica como é a de todos os planetas, se ela fosse redonda isso faria dela um planeta realmente muito especial. Mas eles destacam que a translação elíptica da Terra é quase circular e foi esse o grande fator de sorte, pois faz com que os raios solares incidam em diferentes ângulos em todas as regiões do planeta.

A rota elíptica que a Terra faz em redor do sol e quase circular, faz com que durante todos os 365 dias se mantenha a possibilidade de vida na Terra porque a variação é pequena no verão e no inverno, com uma diferença quase desprezível na temperatura quando comparado com as variações que ocorrem em Mercúrio por exemplo, onde a diferença é de 20%, e as temperaturas podem variar em até 93 graus Celsius quando o planeta está mais próximo ao sol do que quando ele está mais afastado.

Santo Agostinho acreditava que Deus criara a matéria e o espaço-tempo, estando inclusive fora deles, para Agostinho, o Deus cristão (e para Nahmanides o Deus judaico) poderia ter criado sim o universo material a partir do nada, tendo formado tudo no que para nós humanos foi em bilhões de anos, e no que para esse Ser foram alguns yom (dias). Para inúmeros pesquisadores a evolução do universo pela ciência jamais excluiu a possibilidade de um criador que botou ordem no cosmo, ainda não descobrimos a ‘teoria de tudo’ para explicar exatamente como as coisas aconteceram, mas hoje podemos dizer que a criação segundo o Torah e a bíblia são cientificamente possíveis.

Em diversos trechos dos textos judaicos e cristão o Deus criacionista (que hoje se mostrou também evolucionista) afirma que o conhecimento é uma grande fonte do seu poder.

Conheça!

 

Assista o agente Fitz explicando a dimensão do tempo para a equipe SHIELD.

BIBLIOGRAFIA:

RODOVALHO, Robson. CIÊNCIA E FÉ: O reencontro pela física quântica. 2013. Editora Lua de papel.

HAWKING, Stephen. MLODINOW, Leonardo. O GRANDE DESÍGNIO. 2011 Editora Gradiva.

SCHROEDER, Gerald L. THE SCIENCE OF GOD. 2009. Editora Simon e Shuster

SCHROEDER, Gerald L. GENESIS AND THE BIG BANG. 2011. Editora Bantan

MARVEL AGENTS OF SHIELD. Episódio 15 da 3º temporada.

 

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