Se existe uma expressão distorcida nos tempos atuais, essa é o amor. E isso se deve naossa capacidade linguística, temos menos formas de se referir a ele, uma menor gama de expressar os níveis de amor. Os gregos tinham nove.
Nós até temos palavras em nosso vocabulário para definir tipos de amor, porém a banalização das palavras, o uso inadequado com o passar do tempo, acabou fazendo estas palavras se desprenderem do sentido prático delas.
É bem provavel que você já tenha ouvido uma dessas expressões: eros; filia; e ágape. Bem, estas palavras norteiam uma ideia mais profunda sobre o amor.
Em João 21:15-17 Jesus tem uma conversa interessante com Pedro:
“15 E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros.
16 Tornou a dizer-lhe segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.
17 Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.”
Porém é ainda mais interessante se lermos o termo em grego:
15 Ὅτε οὖν ἠρίστησαν λέγει τῷ Σίμωνι Πέτρῳ ὁ Ἰησοῦς· Σίμων ⸀Ἰωάννου, ἀγαπᾷς με πλέον τούτων; λέγει αὐτῷ· Ναί, κύριε, σὺ οἶδας ὅτι φιλῶ σε. λέγει αὐτῷ· Βόσκε τὰ ἀρνία μου.
16 λέγει αὐτῷ πάλιν δεύτερον· Σίμων ⸀Ἰωάννου, ἀγαπᾷς με; λέγει αὐτῷ· Ναί, κύριε, σὺ οἶδας ὅτι φιλῶ σε. λέγει αὐτῷ· Ποίμαινε τὰ πρόβατά μου.
17 λέγει αὐτῷ τὸ τρίτον· Σίμων ⸀Ἰωάννου, με; ἐλυπήθη ὁ Πέτρος ὅτι εἶπεν αὐτῷ τὸ τρίτον· Φιλεῖς με; καὶ ⸀εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, ⸂πάντα σὺ⸃ οἶδας, σὺ γινώσκεις ὅτι φιλῶ σε. λέγει αὐτῷ ⸀ὁ Ἰησοῦς· Βόσκε τὰ ⸀πρόβατά μου.
Note que as palavras em destaque estão diferentes, ou seja, Jesus inicia as perguntas utilizando uma outra expressão de Amor, diferente das respostas de Pedro. Mas observe que na ultima pergunta Jesus cede, e utiliza a mesma expressão de Pedro.
No idioma original do texto, o amor falado por Jesus não é o mesmo amor que Pedro está tentando falar, enquanto para Cristo o amor dele era Ágape (ἀγαπᾷς), um amor de escolha que leva às últimas consequências, o amor que pedro falava era mais simples era Philia (φιλῶ), porém igualmente especial pois era fraternal e dedicado.
Essa compreensão da diferença do amor é relevante pois no versículo 17 vemos uma mudança de palavra, Jesus deixa de perguntar como Ágape e passa usar a mesma expressão de Philia, demonstrando uma concordância com o sentimento de Pedro, pois ele ainda não entendia o amor como escolha de livre concedente.
E assim, podemos entender o motivo de Pedro também ficar entristecido, pois era possível que Pedro não conseguia estar à altura de se sacrificar-se por amor de outros, amor por desconhecidos. (Ágape)
# Os outro amores:
Eros: O desejo puro, amor sexual, é o amor platônico, ou seja, que segundo Platão é o amor por aquilo que se deseja e está distante.
Philia: O amor da amizade, da intimidade e da alma gêmea.
Ludos: Amor lúdico, divertido e sem compromisso. É um tipo de amor que se caracteriza por ser brincalhão, provocativo e indulgente.
Storge: É o amor fraternal e familiar, deriva de philostorgos que significa ternamente amoroso. Existe na bíblia uma referência a seu oposto, astorgou que pode significar sem coração ou impiedoso. Está em Romanos 01:18
Ágape: O amor altruísta que pensa no bem estar de outro acima do próprio.
Qual era o centro da mensagem de Cristo, a graça, o amor? Ou ambos, porque uma coisa só existe por causa da outra?
Podemos dizer que sim, que a mensagem de Cristo não é a prosperidade, não é o milagre, não é o moralismo, não é sobre princípios bíblicos (pois princípios servem apenas para doutrinas religiosas).
A mensagem de Cristo é sobre o amor que concede a graça.
A graça da salvação de Cristo vem pelo amor, e é na prática do amor que vem a satisfação de uma vida plena, não porque desejo coisas e Deus me dá. Ele não tem obrigação de dar coisa alguma ao homem, na verdade Ele já fez muito mais.
Gosto de questionar os meus alunos sobre a salvação perguntando: “Jesus veio para nos salvar do quê?”
Sei que a maioria tem a resposta pronta na ponta da língua, e vai dizer que é do pecado, mas não creio que a resposta seja assim tão fácil.
Por isso quero citar o filósofo Clóvis de Barros Filho, que em muitas de suas palestras fala a respeito do amor e da felicidade.
Ele, Clóvis, diz que o amor pode ser simplificado em três tipos:
O primeiro é o Eros, o amor que segundo Platão seria definido como aquilo que não possuo mas desejo, e essa é a definição do que chamamos de Amor Platônico, puro desejo carnal, anseio e desejo por algo que está longe e não possuo. Amo na ausência, mas quando finalmente tenho o meu objeto de desejo, o sentimento se esvai e torna-se enfado, poderia explicar que o amor segundo Eros é a euforia de desejar e o enfado de ter.
Depois disso temos a definição aristotélica, que prefere tratar o amor por Philia, que o amor mais próximo e menos carnal, onde o meu objeto de amor está próximo de mim e não quero que se afaste, no entanto quando isso ocorre ele esmorece aos poucos, enfraquece, sendo necessário que o objeto do amor esteja sempre próximo para ser amado.
Por último temos Cristo que ensina uma coisa a mais, o amor ágape, onde eu não importo mas o meu amado sim. O amor altruísta que não importa a distância, não importa o estado, sempre existirá, e leva a dar-se por seu amado. Um sentimento poderoso e avassalador.
Sim o amor de Cristo é ágape, incondicional e altruista.
E neste momento você se questiona, como seria possível um ser humano normal ter um sentimento assim?
Sim, é possível, e é preciso que você tenha os três tipos de amor em sua alma para encontrar a satisfação de viver.
Quando Jesus propôs a parábola dos talentos, Ele se referia justamente ao doar-se:
Mateus 25:14-30
14 “E também será como um homem que, ao sair de viagem, chamou seus servos e confiou-lhes os seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem. 16 O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. 17 Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. 18 Mas o que tinha recebido um talento saiu, cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor.
19 “Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. 20 O que tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’.
21 “O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’
22 “Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: ‘O senhor me confiou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois’.
23 “O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’
24 “Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. 25 Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’.
26 “O senhor respondeu: ‘Servo mau e negligente! Você sabia que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? 27 Então você devia ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros.
28 “‘Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. 29 Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. 30 E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes’.
Jesus referiu esta parábola comparando com o reino dos céus, mas é estranho que um homem que pregava o amor e o perdão, contasse uma história com um final impiedoso, simplesmente porque o personagem teve medo.
A interpretação popular é de que esta parábola é referente àqueles que conhecem a palavra e não pregam por terem timidez, mas isso é simplesmente uma interpretação cruel. No entanto, se pensarmos no amor, então, as palavras de Jesus passam a fazer mais sentido e o significado da parábola torna-se mais poderoso e real.
O que importa sobre oque faço com meu talento é o quanto usei em prol ao outro, o quanto de ágape eu pratiquei e não guardei para mim. Minhas forças, meus dons e bênçãos. Nunca foi sobre o medo e o pecado daquele homem, mas sim a individualidade, o narcisismo e a falta de compaixão.
O que Jesus buscava em Pedro, como disse acima, era o Ágape, mas ele estava disposto apenas ao Philia.
Que hoje, nós sejamos menos Pedro e mais Cristo. Que hoje seu amor, que é enlouquecedor, possa viver em nós!